segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Passeio no parque

Era um dia de sol e por isso mesmo a mãe dele resolveu levá-lo para brincar no parquinho. Ficava perto, foram caminhando. Ele aos tropeços. Era tão pequeno. Três aninhos. Macacão azul marinho. Cabelo bem penteado. O parque estava cheio de crianças. Todas as mães e babás tiveram a mesma ideia. Por achar os outros brinquedos perigosos para uma criança tão pequena, decidiu ficar ali pelo tanque de areia. Não que fosse totalmente seguro, aquela areia misteriosa. De onde veio? E os cães que faziam suas necessidades ali? Tudo é perigoso. Até mesmo um inocente tanque de areia, com seus vermes ocultos. Até o amor era. Mas o menino brincava. Fazia castelos com baldinhos de plástico. Digo castelos, pois era assim que as pessoas costumavam nomear. Engrandecendo as nossas tortas construções na areia, nos ensinando desde cedo o que não somos. Pondo esperanças de mãe, até que um dia a vida mesmo se encarrega de soprar esse montinho infame que acreditávamos ser indestrutível. Nossos sonhos.
E por ser um dia de sol, ela também estava ali. Não se sabe de onde veio. Apenas foi se chegando, como se não tivesse pai e nem mãe. De roupinha rosa. Cheia de babados. A mulher perfeita. Foi ela chegar e ele foi logo oferecendo seus baldinhos para ela poder brincar. E por ela ser mais caprichosa, fazia castelos maiores e mais aprumados. Ele olhava admirado. Tentava imitar. Não conseguia. Ela vendo seus fracassos, pegou na sua mão e foi ajudando o pobre menininho a erguer um castelinho digno. Ele gostava, já, dela. As mãozinhas dela pousavam nas dele e pouco a pouco conseguiram fazer o maior castelo do mundo. Conseguiram, pois estavam juntos. E a união das mãos consegue imprimir no mundo impossíveis façanhas. Ficaram de pé e, na pouca altura que tinham, admiravam o castelo. Sorriam, riam, gargalhada gostosa. Batiam palminhas.
A mãe do menino, que acompanhava tudo do banco, não conseguia entender o que eles tanto conversavam. Aquele tanto de “gugu” “dadá”, será que tinha algum sentido? Será que aquelas crianças em estágio pré-fala sabiam de algum segredo que só poderiam comunicar nessa estranha língua (ou seria uma não-língua?). Por certo, ela também já teve acesso a esse segredo. Mas cresceu. Perdeu. Era bonito de ver. Como se uma paz, que ela perdera há tempos, voltasse de repente para o seu coração. O amor que ela perdera. Estava ali, se integrando nas pequenas crianças, que nem sabiam o quanto iriam sofrer. Ela temia. Sorria. Ele também vai aprender. Como eu. Como todos os adultos. Amar. Fim certo. O menino continuava se declarando, a menininha acreditava em tudo. E era assim que tinha de ser.
E como já ia anoitecendo, a mãe do menino acreditava que estava na hora de ir. Mas não sabia como fazer para separar aquelas duas almas. Não foi preciso. Um grito distante. E a mãe da menininha chegou. Deu um sorriso, agradeceu por ter cuidado da filha dela, ela era muito independente e sempre dava um jeito de sumir. “Ela me deixa louca”, e pegando a menina no colo foi-se indo. A mulher pegou o filho também e como ele ainda acenava para a menina ela disse “Diz tchau pra sua namoradinha”. Ela era minha namorada. Mas partiu no vulto negro dos balanços e gangorras, para longe, longe, por detrás da Lua. Um cão veio e derrubou o grande castelo. Eles nunca mais se viram. O amor. Assim é que era. De repentes encontros e súbitos desaparecimentos. Num qualquer dia de sol. Em qualquer parque, em qualquer parte. Mas vem a noite. E era o que restava ser. Só.
                                                                               

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Estudante de Engenharia Civil e Arquitetura e Urbanismo, 23 anos.
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